NOVO site do Escritor Felipe Belão

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O final de um livro que nunca existiu

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Ele atravessava a praça e garoava fino. Usava blusa quente e cachecol. Parou em frente à vitrine e viu o discurso na tevê.

“A leveza da vida. A densidade da alma. Um texto pesado começa assim.Em silêncio se eleva em letras e logo acelera. Leva você para longe. E nada mais pode ou existe além da palavra e da arte. Eu sou música e sentido, eu sou o que penso em ser e eu sou apenas sou e, sendo, sigo sendo eu mesmo. Repetido, confuso e texto, palavra e letras. Só precisam estar. O sentido é de cada um.”

A cena da novela acabava em chamas e no ar do abismo que engolia tudo. Era o fim. O discurso do final. Ele sentiu seus olhos arderem em lágrimas. Apertou o pulso com os dedos. Ainda estava, existia. Seguia seu caminho até a outra esquina, cotovelo cósmico de seus amores.

 

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Sexo Sinestésico

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Tanto para dizer. Tão pouco tempo. Nos intervalos de um papo ou outro, nesses intervalos tão curtos, a rotina da vida corta nossa liberdade de estar, de ser e de vivermos. Claro que só depende da gente, mas há os desencontros indiscutíveis. A profissão, nossas escolhas e o final de semana que passou e já voou. O tempo e seu infinito continuar eterno ainda que nos atropelando. O relógio e seu tic-tac inventado sem sentido: as rotinas que construímos sem pensar ou pesar.

Então nossos olhares se encontram.

Ufa, paramos tudo um pelo outro!

Quando eu te vejo a música troca. De um ritmo frenético eu viajo ao som de um blues virado num rock’n’roll. É o som de teu corpo no meu. De meu beijo no teu. De nossos corpos ardendo no tempo que se tornou infinito diante de tanto sentir. Pele, gostos e salivas misturadas. Eu sou você e você se torna parte de mim ao descortinarmos nossas individualidades em nudez. Pronomes não importam, nomes e idiossincrasias são detalhes distantes diante do desejo.

Há quem diga que nos rendemos. Acredito que estão certos. Eu estou rendido ao teu toque e ao teu jeito. Estou rendido a esta vontade com a esperança que ela seja alicerce eterno de meu abraço no teu. Que nossa conexão seja mais do que palavras ou lógicas. Que nossos corpos sejam o próprio som que altera o ambiente. Que o clímax seja em olhar, tesão e explosão de cores. Meu beijo e teu beijo que formam o nosso, a última nota desta sinfonia.

Depois de tanto, nada para dizer. Afinal, o tempo se dobrou e, em sua curva, inventou nossa morada. Tudo se desfez e criou o instante, nosso momento e a lembrança. Agora sim somos gozo e paixão em nesta meia-noite sinestésica de trepar. Tudo porque, em se tratando de nós dois, amar é gozar o tempo.

 

 

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O futuro precisa de artistas corajosos

O futuro precisa de artistas corajosos

 

Meu silêncio é como o ar parado. Não faz sentido, não existo, pois não me expresso ou exponho. Na escolha de nossa profissão e de nossos caminhos em vida, chegamos a uma encruzilhada da introspecção: é ensimesmar ou enviar as ideias para o mundo.

Diante da perspectiva do movimento, se expressar é para o artista a única forma de existir. O único caminho. Afinal, sem se apegar aos frutos – elogios ou críticas – é seu dever diante do estado do universo se inspirar, imaginar, idear e produzir, comunicando.

Como recipientes cheios e vazios ao mesmo tempo, entregamos o que somos para o mundo num sentido verdadeiro. Recebemos do mundo o que nos cabe: grande parte do que entregamos de volta e uma parte do que nem imaginávamos receber.

É gratificante, frustrante, excitante e perigoso ao mesmo tempo.

Portanto, ser artista é um estado de existir cujo potencial reside em todos nós diante do infinito de nossa capacidade criativa. O mundo do futuro é um mundo das ideias e da criatividade. É um mundo que precisará da alma do artista, de seu olhar doce, da força de sua intensidade, do tesão de ser profano, do transcender de ser divino e do estado de amor e paixão em todas as suas manifestações, sejam elas positivas ou negativas.

O artista não vê moral, não se apega a costumes dos outros, pois cria um mundo só seu. Ele é o que decide racionalizar e sentir num breve espaço de humanidade. É sinestésico, complexo e muitos ao mesmo tempo. O artista é, acima de tudo uma decisão.

Por isso, vale mais a pena buscar ser do que apenas criticar. Vale mais a pena buscar e se tornar do que esperar cair do céu para viver. E o caminho é simples: assuma ser quem você é. Como diria o Paul, vive e deixe viver, viva e deixe morrer. O universo precisa de pessoas que decidem e escolhem e falam e se expressam e se expõe de acordo com o que são. Tudo porque o futuro é construído por artistas corajosos.

 

 

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Posto e apago, logo existo?

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Uma amiga que gosto muito veio me contar que sofre de um peso existencial sobre o que posta e do que deixa de dizer nas redes. Em tempos socais digitais, ela me contou, não está fácil saber quem nós somos ou qual “nós” que a gente decidiu ser hoje. Um mundo aparentemente dividido entre quem é o que posta e quem permanece calado diante da aldeia global.

Claro que antes o silêncio, à estupidez ou ao preconceito de qualquer tipo.

Mas será que continuamos sendo nós mesmos quando deixamos de manifestar algo que nos desperta aquela paixão gritando truco e nos fazendo arder por dentro?!

Ou será que a paz e a humildade residem apenas e inexoravelmente em permanecer calado diante daquele post que ofende seu time, sua opção política ou seu personagem preferido de Game Of Thrones? Nem sempre a resposta é tão fácil quanto parece.

Como em toda desigualdade social de manifestação: para uns menos, para outros mais.

Para os italianos, as pessoas com tpm, os arianos impulsivos, os torcedores do Coxa (ou do Botafogo – que fase!), os entorpecidos e os pouco-se-fodendo (entre outros muitos) o negócio é postar hoje para se arrepender – ou não – amanhã.

Há os que falam médio: os que temem, os que amam demais, os que respeitam demais, os advogados, os debaixo de um coqueiro, os acomodados, os apaixonados que estão pensando em outra coisa e os políticos depois da eleição.

E, por sua vez, os que falam de menos… que… hmmm… não sabemos quem são.

“Eu já fui de vários e de nenhum tipo.” Somos o reflexo de todos no que dizemos e no que somos. Afinal, parte que somos, dizemos. Parte do que dizemos, somos. Tenho certeza que vocês também, ou não. Afinal, na rede o negócio é ser e, acima de tudo, ou não. Tanto faz, desde que com conteúdo gostoso e com amor.

 

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Vontade de viver é vento

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Quando o começo e o meio da semana se precipitam com a solidão na sua cabeça, James suspira. Recebe do vento, um carinho e, a partir deste, reacende a fagulha de sua vida. Desde pequeninho, um sujeito da terra e devoto apaixonado pelo perfume das águas. Aliás, o que mais amava das águas era a sensação gelada delas passando devagar aos seu pés e por seu tronco. Toda vida sorridente diante de temporais, chuvas, chuvinhas e garoas, ele sempre foi sujeito dos melhores para brindar ainda que de longe.

Havia meses e anos em que você poderia jurar que James não saiu do lugar. Ele, no entanto, manteve o movimento constante em seus dias. Só não sabia explicar a inércia dessas últimas luas. Havia barulho nas ruas, pessoas de bem, casas em volta e tudo parecia igual, mas seu sonho murchava a cada segundo.

Numa conversa com seu amigo, um que morava num prédio meia quadra pra lá, ele tentou explicar: “Não é uma questão de desistir do sonho, mas sinto que a trilha foi coberta por um gramado. Não sei dizer nem se estou perdido, se vai dar certo. Eu forço acreditar. Eu acredito até… acho. Não sei dizer. São vários tipos de não. Vários tipos de silêncio. Várias dores que fazem estalar minhas juntas. Eu me perco sem o vento.”

Seu amigo só ouvia. Não falava nem não, nem sim. Só ouvia e, no silêncio atento, oferecia cuidado. Tamanha era a intenção de amizade de um para o outro que eles se olhavam, se mediam, se miravam e se refletiam num balé de mais nada por dizer. A dança desta tristeza de James, no entanto, seguia. E sua vontade de colocar toda a força vital em um mesmo propósito parecia minguar.

Tudo ficou bem só quando o amigo silencioso rompeu a noite da janela do seu apartamento: “Sim, até mesmo as árvores podem se apaixonar.”

 

 

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Mulher sozinha quer chover

Mulher Sozinha Quer Chover

 

As gotas de chuva pra fora da janela escorrem lentas e tediosas. Encerram em si belezas e sutilezas, mas ainda assim não dizem nada. Caladas observam o quarto, a cama e os desenhos dela na parede.

Ela se move devagar. Levanta da cama num pulo e olha no espelho, seu ritual diário. Logo depois, ela alonga bem a coluna e estala o pescoço num som seco de arrepiar. Respira o ar de sua casa vazia e sente que seu peito está cheio.

Seu banho a permite sentir o presente, organizar os pensamentos e completar com novas ideias o que a rotina não ocupava. Suas paixões parecem de algodão de tão frágeis e ela não economiza ao chorar. Derrama lágrimas até em livros. Chora com os poemas e pela política. Se expressa em cores e no jeito que arruma seu cabelo. Seu sonho desde menina é ser livre a ponto de entender a liberdade. Hoje já mulher, muitos a julgam quando ela grita nos bares. Ela se exalta com cerveja e, quando pode fazer sem pressa, gosta até de fumar. Seus pensamentos são um fluxo rápido e pleno que duram um relance de seu olhar.

 

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